quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Infância
Ainda carregava para todo lado aquela boneca sem braço e com um olho só. As pernas riscadas de rosa contrastavam com o plástico desbotada pelo tempo. Esse que ela não queria deixar para trás.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Contradição
Sou tudo o que você repudia. Mas detenho os direitos sobre suas vontades.
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Constatação
Alterar a realidade é para poucos. Só conseguem aqueles que vivem fora dela.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Palavras
Mundo começa com a mesma letra que medo. Eterno, que errado. Vida tem som de partida, enquanto morte, de sorte. Ainda bem que é só português.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Rascunho
O caderno onde desenho meu sentido ficou aberto em cima da mesa. Não fui eu quem fez isso, nem poderia. É pesado para mim. Nada posso fazer além de carregá-lo enquanto alguém assiste. Relevo sua pena, mas preciso cumprir a minha. Não tenho certeza de mais nada. Talvez por isso eu deixe meus lápis sempre apontados.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
Reflexos
Passos lentos regidos pela fumaça e pelo cheiro blindado do trânsito de São Paulo. Não tenho previsão para chegar. Meus sentimentos extravasam pelos meus dentes, trancados pela dor da presença eterna de uma outra alma atormentada. O que fazemos é fruto da falta de reflexo. Se é um deus, onde ele está? Tentar traduzir sua imagem é inglório. Não pertenço a esse grupo. Dominar é para os fracos e minha força está além do entendimento de todos nós. O caminho pelo qual opto está de acordo, o que não quer dizer que vai ser fácil. Se pelo menos não chovesse.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Sexta-feira romântica
O espaço entre a lua e a terra está apertado. É lá que mora o meu amor por você.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Beautiful boy
O dedinho chegou até a calda do bolo. Tímido. Lento. Voltou um pouco mais pesado. Equilíbrio. Direto para a boca. Olhos na outra mão, amarrada à da mãe. Distraída. Quem sabe outra vez. Ousadia. A mãe conversa. O dedo sobe mais animado. Visão fixa na voz. Cálculo mal-feito. Um rasgo na cobertura. Estrago. Palmadas. Gritos. Sacudidas. Vergonha. Desculpe, esse menino é tão levado. Em casa, castigo. Com gosto de açúcar.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009
De volta
Meus cabelos tão longos emaranharam-se na cauda do vento que passava. Sem que ele percebesse, tirou meus pés do chão. Encostei a mão na lua, revirei a via láctea, peguei um pedacinho de mercúrio. Quase perto do sol, minha carona se deu conta de mim. Faça o que quiser, mas não corte o meu cabelo, implorei. O vento amarrou uma tromba e tomou outro rumo. Vais me atrasar anos-luz. Mas foi a viagem de volta que valeu toda a minha vida. Vi minha casa e sorri de saudades. Quando meus pés acharam o equilíbrio, agarrei mais uma vez o vento e agradeci. Pode deixar, corto o cabelo hoje mesmo. Daqui não quero sair mais não.
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